Quando a luz fechou os olhos


Quando a luz fechou os olhos Amansou a terra um ar morno De cinza, doce, de cores desmaiadas Pelos perfumes vindos no bafo da noite Do ramo mais fino do silêncio Soou o rouxinol num canto dorido De seda e ondas, que soltava em cada nota Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo Teceu um véu e ali se guardou De volta às entranhas da vida Basta um sopro mágico, liberto, Para que a luz acorde a cantar - Janita Salomé -

É de murta e de mar a tua voz

É de murta e de mar a tua voz Com algas de canção estrangulada. Aberta a concha da trova malsofrida Saíste como sai a madrugada Da noite, virginal e humedecida. É de vinho e de pinho a tua voz Com pranto de insofríveis flores banidas. Mas é pela tua garganta que soltamos As eriçadas aves proibidas Que no muro do medo desenhamos. - Natália Correia -

Para José Afonso

o canto que se erguia na tua voz de vento era de sangue e oiro e um astro insubmisso que era menino e homem fulgurava nas águas entre fogos silvestres. Cantavas para todos os acordes da terra, os obscuros gritos e os delírios e as fúrias de uma revolta justa contra eternos vampiros. Que imensa a aventura da luz por entre as sombras! A vida convertia-se num rio incandescente e num prodígio branco o canto sobre os barcos! E o desejo tão fundo centrava-se num ponto em que atingia o uno e a claridade intacta. O canto era carícia para uma ferida extrema que era de todos nós na angústia insustentável. Mas ressurgia dela a mais fina energia ressuscitando o ser em plenitude de água e de um fogo amoroso. É já manhã cantor e o teu canto não cessa onde não há a morte e o coração começa. - António Ramos Rosa -